CALAFATE



Em fevereiro de 2014, nos instalamos no Calafate, bairro da região oeste de Belo Horizonte, onde foram desenvolvidas pesquisas, experimentos e projetos em articulação com parceiros locais, moradores, comerciantes e a universidade. Investigadas as práticas culturais e políticas emergentes da vizinhança, buscamos testar processos de reconquista do espaço público e seu uso coletivo por meio de iniciativas micro-arquitetônicas e gráficas.
      Nossa inserção no Calafate buscou exercitar, desde o início, meios de infiltração e envolvimento que permitissem uma visão otimista do território e, em vez de identificar mazelas a serem resolvidas, despertassem possibilidades a serem fomentadas. O diagnóstico foi substituído pelos mapeamentos processuais, e os questionários tendenciosos, por ocasiões banais que suscitam conversas.   
      Estruturamos nossa metodologia de imersão no bairro em três momentos, apresentados abaixo. Eles não estão divididos cronologicamente, nem hierarquicamente, mas são simultâneos, de modo a possibilitar interferências entre si. O que os diferencia é o limiar entre o caráter investigativo e o propositivo. Isto é, são aplicados ora para nos informar, ora para ativar transformações no bairro. É claro que qualquer observação, por mais discreta que seja, constitui em si mesma um elemento transformador do espaço. Ao mesmo tempo, toda ação concreta traz algum aprendizado sobre o lugar.

Para acessar o livro que compila todas as investigações e ações do projeto, clique aqui.

ESPAÇO, EDUCAÇÃO, DESIGN

Inserção, investigação e ações urbanas realizadas durante um ano no bairro Calafate, em Belo Horizonte.

Novembro 2014

Belo Horizonte (MG)



1.Perceber o invisível
Através de andanças e conversas,descobrimos e documentamos em mapeamentos as nuances e práticas sócio-espaciais invisíveis do bairro, bem
como aquilo que é perceptível à vista em diferentes escalas — das calçadas do bairro a bases cartográficas já existentes.

2.Investigar pela ação
Participando de eventos locais já existentes, propusemos processos híbridos de mapeamento e ação que catalisam o uso de determinados espaços, instigam a percepção dos envolvidos sobre o bairro e, ao mesmo tempo, nos informam sobre as relações de afeto e visões subjetivas sobre o território.


3.Preencher as lacunas
A partir de questionamentos formulados pelos mapeamentos e ações realizadas anteriormente, o terceiro momento propõe a experimentação um sistema de projetos que visam processos de reconquista, ressigni cação e deslocamentos da noção atual de espaço público no bairro.





1. PERCEBER O INVISÍVEL
Procuramos em meios oficiais e bases geográficas informações urbanísticas sobre o Calafate e Prado. Mas para além do entendimento quantitativo do bairro, procuramos descobrir práticas sócio-espaciais a princípio invisíveis. Em um primeiro momento, não se sabe o que será encontrado, por isso a tática investigativa se assemelha à deriva.
      Na medida em que se enunciam questões mais bem formuladas, a pesquisa se torna mais específica, com foco naquilo que se mostra mais instigador e paradoxal. Nas andanças e conversas, observamos, nos apresentamos e trocamos experiências com desconhecidos, fazemos entrevistas semi-estruturadas com protagonistas e experimentamos práticas do dia-a-dia do lugar. Entende-se o bairro não como objeto de estudo, mas como ambiente de estudo, onde se estranha o familiar e os pequenos acontecimentos são valorizados como camada de leitura possível e alternativa à história oficial, revelando as potencialidades e os impasses do território.




2. INVESTIGAR PELA AÇÃO
Aproveitamos acontecimentos do bairro para iniciar diálogos com moradores e propor ações que, além de nos informar mais sobre o lugar, nutriam possibilidades de ativação de determinados espaços. Propusemos e infiltramo-nos em eventos organizados por moradores e instituições locais, envolvendo-nos em discussões e demandas já existentes. As atividades e oficinas realizadas nos informam sobre o território, redes de afeto e cooperação, memórias e sonhos para o bairro. Afinal, os maiores conhecedores do lugar são aqueles que o habitam. Ao mesmo tempo, essas ações põem em relevo aspectos que, por falta de sistematização, passam despercebidos para os envolvidos. Quando a informação se torna pública, engata-se um processo de trocas, debates, desacordos e projeções futuras.


OFICINA DE FOTOGRAFIA

A fim de discutir com os alunos da escola local como a fotografia pode registrar e indicar complexas dinâmicas da cidade quando se está disposto a observar e investigar, convidamos o grupo a participar de uma oficina de fotografia. A oficina começou com a apresentação de seis eixos temáticos que abrangiam nossas inquietações sobre o bairro em uma linguagem acessível - arquitetura, natureza, lazer, comida, reaproveitamento e retratos. Depois de escolherem voluntariamente um dos eixos apresentados, os alunos saíram pelo bairro em trajetos definidos coletivamente, dissecando a paisagem cotidiana através da fotografia. Dois dias depois, as fotografias e os trajetos foram expostos na escola, momento no qual os alunos e moradores locais conversaram sobre a cartografia e as paisagens dos arredores da escola.


CAFÉ DA MANHÃ

Proposto inicialmente pela associação de moradores como estratégia de desestigmatização dos alunos e da escola, que já viu dias de presença mais orgulhosa no imaginário coletivo da vizinhança, o Café da Manhã ensaiava uma maior integração, tanto espacial quanto subjetiva, entre a escola e o bairro. A mesa, posicionada entre a praça e a escola, atravessava simbolicamente o muro que opera a imponente divisão entre os dois espaços. Naquela manhã de sábado, alunos, professores, moradores e transeuntes curiosos compartilhavam uma só mesa de café da manhã que não estava nem dentro nem fora, mas entre lugares e disponível a qualquer um. Entre xícaras de café e pedaços de bolo, trazidos pelos participantes para serem compartilhados, relações entre pessoas interessadas em pensar o cotidiano e o futuro da vizinhança foram ativadas.


LINHA DO TEMPO COLETIVA

Aproveitando o encontro dos Amigos dos Bairros Calafate e Prado, evento anual organizado entre os moradores antigos da região, nos propusemos a documentar as memórias que motivam o encontro. A ideia era adicionar uma camada de micro histórias pessoais e memórias coletivas à história oficial do bairro, narrada sob a ótica dos grandes acontecimentos e da articulação territorial do bairro com o restante da cidade. Para isso, confeccionamos uma linha do tempo dobrável e portátil que continha os fatos históricos até os tempos atuais. Durante o encontro, os participantes adicionavam acontecimentos e informações que revelavam uma imagem do bairro filtrada pelos vínculos afetivos com determinados espaços, práticas e acontecimentos que configuraram aquele lugar. À medida que as histórias eram registradas, começavam a se formar entusiasmados debates acerca de fatos contraditórios sobre a própria história local, tornando ainda mais complexo o desenho coletivo do bairro.


CASA INSTANTÂNEA

A Casa Instantânea foi um evento de troca de objetos que aconteceu na principal praça do bairro. Convidamos moradores da região a trazerem de casa objetos subutilizados que poderiam ser trocados por aqueles trazidos por outras pessoas. Na medida em que novos objetos chegavam e outros eram levados embora, uma sala de estar em constante transformação se estabelecia em pleno gramado da praça. Motivados pela curiosidade ou informados pelos panfletos distribuídos na véspera, alguns moradores co-habitaram temporariamente esse espaço. Entre um encontro e outro, aproveitamos o momento para conversar sobre a praça e descobrir o que os vizinhos tinham a dizer sobre seus usos, seus limites e suas particularidades, além de ideias sobre o futuro do lugar.


DIA DO SUCO

O dia do suco teve como intuito aproveitar a presença do público da praça local, no horário de saída da escola, para discutir distraidamente proposições para um espaço comum imaginário no bairro. Montamos em plena praça um balcão com liquidificadores e frutas sortidas, cujas combinações eram transformadas em sucos elaborados por quem passava por ali. No entanto, ao invés de comprados, os copos de suco eram trocados por uma moeda fictícia que podia ser adquirida ao se fazer uma colagem ou desenho que imaginassem usos para a Casa do Calafate, esse possível espaço comum que pertencesse a todos do bairro. Na medida em que colavam e desenhavam, os participantes discutiam entre si e compartilhavam seus imaginários do espaço comunitário, o que rapidamente se misturava a ideias para a melhoria da praça onde o evento acontecia.




3. PREENCHER AS LACUNAS
Apesar da efervescência da Rua Platina, do uso constante da praça Carlos Marques, das apropriações domésticas e dos encontros nas portas dos bares, é evidente no Calafate o gradativo encerramento na esfera privada das práticas que um dia se davam na rua. Isso é resultado, entre outras razões, do crescimento da sensação de insegurança na cidade e de processos urbanos impositivos que, ao longo dos anos e em nome da ordem e do progresso, foram inibindo manifestações festivas que povoavam as calçadas, praças e campos do bairro. Seja por falta de informação, medo, ausência de diálogo ou descrença na capacidade transformadora do cidadão comum, identificamos nos moradores e frequentadores do bairro um ceticismo na noção de espaço público, o que acaba por comprometer a noção de vizinhança. Como resposta a esse contexto, propusemos um sistema constituído por projetos a serem desenvolvidos no bairro que testam o deslocamento da noção de espaço público para lugares outros, de modo a questionar seu significado desgastado e experimentar o reenvolvimento das pessoas em processos de ações coletivas que extrapolam os muros da esfera privada em direção às ruas do bairro.


CINEMA CALAFATE
Cinema Calafate é uma série de documentários produzidos sobre o bairro Calafate. Ao sobreporem depoimentos, expedições pelo bairro e cenas cotidianas, os vídeos colocam em relevo a pluralidade de percepções, imaginários e expectativas sobre o espaço público no bairro. Exibidas à noite na Praça Dr. Carlos Marques, as sessões são seguidas de conversas sobre os temas abordados pelos documentários, abarcando novos interlocutores nas conversas promovidas pelos filmes.









ATIVIDADES NA ESCOLA BERNARDO MONTEIRO
A pintura do muro da Escola Estadual Bernardo Monteiro, parte de uma série de oficinas com os alunos e intervenções no local, teve como objetivo atenuar a conotação negativa que a estrutura possuía como barreira entre a escola e a Praça Carlos Marques, buscando romper com os significados de segregação, vigilância e controle que ela foi adquirindo ao longo do tempo. Mesmo sem levar o muro abaixo, buscamos discutir, através da intervenção, a possibilidade de uma escola que dialogasse de maneira mais intensa com o seu entorno, além de debater com os alunos a relação entre espaço e pedagogia.
       O processo foi iniciado através de uma oficina de stencil e lambe-lambe, técnicas acessíveis e facilmente replicáveis. Levantamos com os alunos temas relacionados com a escola e seu entorno, a partir dos quais os participantes criaram uma série de desenhos. Os desenhos foram transformados em moldes de stencil e utilizados na pintura do muro da escola, realizada coletivamente entre alunos e moradores do bairro ao longo de três dias.





FALA CALAFATE
O FalaCalafate é um jornal de bairro editado pelo Micrópolis e redigido pelo coletivo em parceria com a vizinhança. Mais que um noticiário, o jornal imprime o imaginário coletivo do espaço público no bairro por meio de histórias narradas pelos moradores e coletadas a partir de entrevistas, visitas guiadas e arquivos pessoais.
      Além de celebrar a memória, o jornal reúne também propostas para o futuro do bairro, que são mapeadas a partir de práticas espaciais já em curso pelos moradores. Ao se divulgar esses modos de viver e fazer o bairro, o jornal pretende articular moradores com práticas e interesses compatíveis, incitando processos de transformação do espaço que partam do esforço coletivo e dependam menos do Poder Público.







CADERNO CALAFATE
Caderno Calafate é uma publicação lançada após um ano no bairro Calafate. O livro compila os mapeamentos experimentais realizados neste período, uma série de textos sobre a história do bairro e as potências no seu cotidiano, suas apropriações pelos moradores, além de registros do nosso trabalho e as suas repercussões para a prática arquitetônica. Mais do que isso, no entanto, o Caderno foi entendido como uma plataforma para alimentar uma reflexão propositiva sobre o Calafate, além de auxiliar na reprodução de outros projetos como este em outros locais.
O Caderno Calafate está disponível na íntegra em neste link.










AÇÕES NA PRAÇA CARLOS MARQUES
Um parquinho infantil já fez parte da paisagem da Praça Carlos Marques. Ao recordar a história do bairro, os moradores mais antigos relembraram com nostalgia quando levavam seus filhos para brincar no balanço, no escorregador e na quadra esportiva. Entretanto, este parquinho foi removido após um processo de deterioração causado pela falta de manutenção. Com a diminuição da presença das crianças na praça, também ocorreu um aumento da sensação de insegurança, e hoje o espaço é muito pouco atraente para os pais e seus filhos. Na tentativa de reverter esse ciclo, iniciamos a recontrução gradativa do parquinho, com um balanço e duas amarelinhas, a fim de devolver à praça a intensidade do exercício coletivo do recreio. Para além da criação de experiências coletivas de lazer, essas intervenções são dispositivos políticos, que tornam perceptíveis conflitos latentes que povoam silenciosamente a praça, gerando novas discussões a respeito do seu uso.




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